A Poesia do Encontro

Miguel, o céu azul e os macaquinhos

Íamos ao Horto Florestal fazer piquenique. Terça-feira de sol. Pegamos um ônibus no Largo do Paissandú e seguimos direto para lá. Miguel, eu e meu parceiro de trabalho da época.

Miguel tinha doze anos e estava em situação de rua há algum tempo, entre idas e vindas da casa do pai. Não gostava, nem conseguia ficar muito tempo lá. Era difícil para ele dizer com clareza o porquê. Mas ele não gostava de apanhar em casa, e isso era suficiente. Fazia da rua a sua morada, e na calçada, construía um castelo de papelão à prova de dor e violências. Fazia um buraquinho onde só cabiam seus olhos e podia ver tudo que estava fora. E dentro, ninguém enxergava – estava protegido, assim acreditava.

Às vezes, durante o dia, eu o encontrava em cima de uma pedra no lago da praça da República. Sempre sozinho. Brincava com algum pedaço de pau, pedregulhos ou algo que havia achado. Fazia um teatro imaginário ali. Miguel sempre me surpreendera com sua imaginação. Adorava fazer roteiros de histórias, encenar, brincar de esconde-esconde, forca, adivinhação, se fingir de cego na rua para eu guiá-lo, ver filmes no cinema e era muito perguntador. Se envolvia nessa temática: a adivinhação, o mistério, a dúvida. Era um menino especial, não é fácil ter dúvidas de monte quando se tem doze anos e se vive "quase-sozinho" na rua. Tinha um irmão por quem era apaixonado. Tem um irmão. E outros irmãos e irmãs. A vida um dia há de juntá-los, assim acredita.

Nas suas propostas de brincadeira, vira e mexe aparecia o tema “família”. Bonecas, bonequinhos e bexigas de gente. Relações familiares. Miguel sentia saudades de sua mãe. Aquela que não se lembra, mas sente falta. Ela faleceu quando ele tinha dois anos.

Voltando ao dia do Horto. Miguel ficou encantado com o pavão que lá encontramos perto do lago. Galinhas, gansos e outras aves que não sei o nome. Miguel queria saber o nome. Me perguntava, quase sempre sem uma resposta. Ficávamos de pesquisar. Estendemos uma toalhinha e comemos em meio ao verde. Bisnaguinha, salsicha, requeijão, banana, tangerina, chocolate e suco. Falamos de filmes, cinema, comida e sua avó. Lembro que Miguel falou de sua avó, que havia falecido há quase um ano atrás. Sentia saudades também.

Após comer nos esticamos um pouco na grama. Ficamos deitados com o sol pousando em nossos rostos. Aquele momento em que o céu nos mostra que a vida é muito maior do que a gente pode imaginar. E o céu azul vem pra dizer que a vida é um grande mar sem resposta. Às vezes é melhor nem perguntar.

Depois de um tempo, ouvimos de alguém no parque que havia uma árvore ali que ficavam macaquinhos. Miguel se espantou. Fomos com pressa até lá. Pegamos umas bananas que sobraram e Miguel começou a flertar com eles. Eles vinham até lá, peraltas com a oferta da comida. Miguel não cabia em si. Sua feição me dizia que ele estava num estado de êxtase. Adorava os macaquinhos; como era bom poder estar perto deles e lhes dar comida. Ficamos lá um tempão.

Um tanto depois, falei para irmos embora, já eram umas 16hs e a volta era longa. Ele me olhou com olhos contrariados. – Tudo bem se eu ficar?

– Por que você quer ficar, Miguel? Vamos juntos, vai. Vai escurecer, fico preocupada com você aqui no parque sozinho.

– Mas… Quando eu voltar, eu vou ficar na praça da República, sozinho também. E aqui, pelo menos, eu vou ficar com os macaquinhos.

Por um segundo, olhei pro horizonte e pro céu. Emudeci. A vida é mesmo um grande mar que carece de respostas. Às vezes é melhor nem perguntar.

Pensei nele e como o achava encantador. Um poeta vivido, grande, maior. Artista. Na dor, cria. Na dor, brinca. Na dor, pergunta. Miguel me inspirava, e me entristecia também. Não ele, mas a carência de entendimento do acontecer das coisas. Doze anos, sozinho, na rua. Inspiração. Transgressor por paixão e natureza. Sonhava quando a vida dizia para se calar. Ou cria ou anestesia, ou cria ou anestesia: Miguel cria. Grandeza, admiração.

 

Lívia Lascane – ET do programa Refugiados Urbanos

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