CASOS DE SUCESSO
O Projeto Quixote quer compartilhar com você, admirador do projeto, alguns casos de sucesso nos 12 anos de atividades:
Programa Refugiados Urbanos
Abordagem de Rua
W. P., 11 anos, tinha apenas nove anos de idade quando o conhecemos nas proximidades da praça da República. Apesar da pouca idade e de ser pequenino e franzino, era um menino bastante arisco e estava sempre em busca da cola ou do thinner, acessórios básicos nas mãos das crianças e adolescentes daquela região entre o vale do Anhangabaú e República. Durante alguns meses o acompanhamos pelas ruas do centro da cidade e por algumas de suas idas e vindas ao abrigo Moinho do Bixiga. Tais acompanhamentos foram muito importantes para aos poucos nos aproximarmos de sua história e da sua família. Paralelamente aos acompanhamentos nas ruas, começamos a estabelecer contatos periódicos com sua família religando-os à rede de assistência de seu município de origem (Carapicuíba). Na rua é muito comum que as crianças e adolescentes se aventurem viajando em trens de carga até a baixada santista, onde curtem uma praia. No entanto, W. acidentou-se em uma destas aventuras e sofreu uma amputação de parte da sua perna esquerda ao ser atropelado pelo trem. Os acompanhamentos que antes eram feitos pelas ruas do centro de São Paulo passaram a ser feitos em um hospital da cidade de Santos onde o garoto ficou internado por cerca de um mês, até ser transferido para o abrigo do Bixiga, onde pôde ser acompanhado de forma integral pela equipe do Projeto Quixote. Após receber alta da equipe médica do Hospital Infantil Menino Jesus em São Paulo, W. retornou à sua família e aguarda a realização de uma cirurgia corretiva da estrutura óssea da perna que permitirá o uso de uma prótese. Enquanto isso, a família continua sendo acompanhada pela equipe de educadores e encontra-se muito mais estruturada do que anteriormente, tendo o pai voltado a trabalhar e tratando-se do alcoolismo, as crianças sido inseridas em creches e escolas e a mãe ganhando corpo e força para apoderar-se de sua função de mãe.
Abrigamento
V.S.S., hoje com 14 anos, entrou em contato com o Projeto Quixote em 2006. O mesmo costumava a freqüentar as ruas entorno da avenida Amaral Gurgel, sendo neste espaço sua aproximação com os educadores de rua (ET). A partir deste momento passou a freqüentar algumas oficinas de artes no antigo Moinho da Luz, antigo mocó abandonado próximo à Sala São Paulo. Suas idas ao Moinho eram constantes, assim como seus desaparecimentos. Aparecia para algumas atividades e, outrora, ficava meses sem ninguém saber de seu paradeiro. Em outros momentos o contato com o menino era inexeqüível, pois estava 'afundado' no uso de Crack em conjunto com outros meninos na rua. Mesmo assim, demonstrava desejo de parar de fumar drogas e ir para algum abrigo. Em março de 2007 foi avistado dormindo na rua, e ao ser abordado recomeça a aproximação. Nas ruas sofreu todas as hostilizações que poderia, desde agressões físicas a atropelamentos, porém nenhum sinal de possibilidade de voltar para sua família, que aliás pouco falava sobre o assunto. As vésperas de inaugurar o abrigo do Moinho do Bixiga, V. foi encontrado na rua e comunicado da possibilidade de ficar neste local. Em 25 de abril de 2007, o garoto foi abrigado no Bixiga. Eis o início da outra fase do atendimento. Com a presença dos educadores foi realizado todos os cuidados concernentes ao físico (corte de cabelo, higienização e encaminhamento para médicos e dentistas) e mental (psicológico). Sua passagem pelo abrigo foi marcada por poucas evasões e muitos pedidos de atividades (seu corpo de menino tinha energia para alimentar uma hidroelétrica). Meses se passaram e não conseguíamos informações sobre a família do menino, ao ser questionado sobre seu paradeiro, sempre encontrava alguma forma de não falar, por vezes alegou ser um direito seu não querer falar. Tentamos de várias formas, fizemos contato com conselho tutelar do Itaim Paulista (seu bairro de origem, qual falava bastante) e o órgão não sabia informar nada, pois não constava entrada sobre o caso em seus registros. Por sorte, outro adolescente frequentador do abrigo nos forneceu o nome da escola onde o menino estudou. A escola nos forneceu o endereço onde residia sua mãe e uma cópia da certidão de nascimento. O documento escolar datava de 2003 e o endereço lá descrito já estava desatualizado, no local não mais morava sua família. Deixamos contato com a vizinhança aos pedidos de caso venham a ver sua mãe, para que nos comunicasse. Na semana seguinte ao ocorrido sua mãe ligou e apareceu no abrigo, e V. emocionado voltou para casa, após dois anos longe de sua família, aos 26 de setembro de 2007. Mesmo com o retorno familiar, os educadores continuam o acompanhando, inclusive auxiliando na matrícula do menino em escola e atividades educacionais na região onde mora. Sua família foi encaminhada ao Projeto Quixote para o Programa de Acolhimento e os atendimentos individuais continuaram. Aos 13 de fevereiro de 2008 a mãe nos ligou comunicando que não pode mais ir ao Quixote por falta de dinheiro, mas que seus filhos estão bem, inclusive o irmão de V. que já iniciou na creche. O garoto está bem, estudando e dando um pouco de trabalho (como qualquer adolescente), só falta matricular seu irmão de apenas dois anos na creche. Irmão, este, que o garoto não viu nascer, apenas lembra de sua mãe grávida, mas ao vê-lo emocionou-se.
Programa Núcleo de Família
Mãe atendida, por Suely Fender
Um caso que pode ser usado como exemplo de modificação na história trazida pelo Núcleo de Atenção à Família aconteceu em um dia que recebemos uma senhora, de aparentemente 45 anos, que trazia seu filho em grave situação de risco social. Apresentou-se bastante mal vestida e mal cuidada, não sabia dizer sua idade, parecia não compreender as discussões que se desenrolavam no grupo e se expressava com muita dificuldade, utilizando-se de uma linguagem bastante rudimentar. Aos poucos, incentivamos esta senhora a contar-nos um pouco mais de sua vida e conhecemos uma mulher maltratada pelo seu marido, que ordenava tarefas, não lhe reservava o direito de ter vontades, de escolher, de ter dinheiro, de sorrir ou de ficar triste e a agredia fisicamente e verbalmente. Com o tempo pôde ouvir o que as outras mães lhe falavam e se fortalecer com as histórias e com as opiniões das outras pessoas do grupo. Fornecemos vales transporte para que ela pudesse vir ao Quixote sem que dependesse de seu marido para isso. Ela comparecia aos grupos com assiduidade, cada vez mais bem cuidada, bem vestida, e mais bonita. E interessou-se por freqüentar a Oficina de Mães (geração de renda), na qual recebe uma bolsa auxilio mensal de cem reais. Passou a questionar as posturas de seu marido, e a pensar sobre suas opiniões a respeito de seu dia a dia. Mesmo casada com ele, não aceita mais suas ordens quando não concorda com elas, não se submete mais às suas agressões, se reserva ao direito de fazer o que julga correto, de sorrir e de chorar quando se sente feliz ou triste. A transformação desta senhora aconteceu em um mês e meio e um dos muitos casos de sucesso do Núcleo.
Programa Educação para o Trabalho
W.V., 17 anos, freqüenta o Projeto Quixote desde o final de 2000, quando tinha 9 anos. É um dos jovens que está a mais tempo no projeto, passando por todas as etapas e a maioria das atividades oferecidas pela instituição. Chegou até o QXT por indicação de um amigo da comunidade Mário Cardim, que já freqüentava o projeto. Local de moradia do jovem até os dias de hoje, no qual reside com os pais, a Mário Cardim é uma favela próxima à entidade nos quais muitas crianças, jovens e mães são beneficiados pelo Quixote. Dos 9 aos 12, W. participa das oficinas lúdicas e de teatro, e mais tarde, nas de vídeo, passando a freqüentar a Usina de Imagem. Aos 13, se interessa pelo computador e começa a se destacar na oficina de informática. Devido à extrema dedicação, é encaminhado à Escola de Artes, Ofício e Computação e faz um curso de aperfeiçoamento na área. No primeiro semestre de 2007, ao completar 16 anos, passa a freqüentar o programa de Educação para o Trabalho (Quixote Jovem). Trabalhando em período integral desde agosto passado, à noite cursa o 3º ano do ensino médio em uma escola estadual. Atualmente seu irmão mais novo e sua mãe seguem o mesmo exemplo do jovem, freqüentando a oficina lúdica e Oficina de Mães, respectivamente. O jovem, uma referência a seguir seguida pelos atendidos, é retratado no vídeo institucional do Projeto Quixote, produzido em dezembro de 2007.





